Body and soul

Meu corpo é instrumento de força bruta, lapidado para o bem enquanto a vida por ele corre, salta, tropeça e vibra.

Meu corpo é fonte de dor e de tensão. Mas também irradia desejo e luz.

Meu corpo expele líquidos, transpira para viver melhor. E absorve emanações de outrem.

Meu corpo é vivo mas entende a morte. Meu corpo é chama intermitente, ora acesa ora soturna.

Meu corpo eu adoro. Meu corpo eu cuido. Meu corpo eu trato.

Me leva e me traz meu corpo. Dança, rebola, sapateia. Meu corpo não deixa barato.

Meu corpo é mole quando o anteparo é áspero. E duro quando se exige languidez.

Meu corpo são meus membros e minha pele. Meu suor, meu sangue, meu sexo. Meu corpo sou eu coordenando.

Meu corpo é máquina.

Meu corpo se mexe e me dá prazer. Faz gozar as delícias da vida. Sentir as dores que nascem quando não queremos.

Meu corpo é fogo e água. Pensamento e verbo. Ação.

Meu corpo é brasa. Pedra de gelo quando se pede com whisky.

Meu corpo é trem-bala ou carroça de jegue doentio.

Meu corpo aquieta e vai embora quando seu espaço é tolhido.

Meu corpo não cai, se ergue antes da queda completa.

Meu corpo eu sou.

Excerto

Aí eu amo as pessoas

Mas não sei o que é saber dizer isso

Penso no quanto tenho delas em mim

Mas tenho medo de externar tamanho afeto

Ficando depois vazio

Sem ter a que me agarrar.

ALA
A força do hábito...n nos falamos hj e então pensei em como isso pode ser estranho e ao mesmo tempo totalmente coerente com o q somos. Nos amamos de perto ou de longe na mesma intensidade.
 
sei lah, mais uma loucura da vida e seus sentimentos. A força do hábito é amá-los.
Enquanto isso

É claro que adoraria estar com ela agora, essa pessoa que marca presença em meus sonhos nas noites tropicais. Claro que a aguardo e todos os dias borrifo aquele perfume que ela gosta, para o caso de...

É óbvio que não ouço as opiniões alheias que tentam me desvencilhar do desejo de tê-la em estado perene a acarinhar os pêlos de minha nuca. Sonho e sonho de novo com um bom papo, vitrola tocando Caetano cantando qualquer música do álbum "Cores Nomes" e um bom vinho a se interpor entre olhares magnetizados.

Aguardo. E não há nada mais excitante nisso. Às vezes é incontrolável o desejo de já possuí-la, entre dentes, entre unhas, em cima, embaixo.

Esta pessoa que se esconde atrás das cortinas e nem se preocupa em esconder os pés de atleta veloz nem tampouco a aura de anjo rebelde. Posso vê-la sem seus trajes comuns e ouvir sua voz de vigor e sensibilidade.

Quero fazê-la existir. Enquanto o Pinochio não recebe a fada e assume a forma de carnes e sangue, vou me virando com o que já tem pronto aqui. Me sirvam um miojo enquanto não está pronta a macarronada.

Em verso e prosa

Só posso ser traduzido em verso. Preciso de melodia. Preciso de algum abraço de peito quente. Estou em busca do direito de exercer minhas contradições. Adoro Vanessa da Mata e Amy Winehouse, assim mesmo, nessa concomitância desconcertante. Gosto de coisas simples, como matar a sede e andar de bicicleta. Definitivamente não sigo a sofisticação e talvez isso deponha contra mim. Quem nasce e vive numa casa com quintal e passa a infância com os pés na areia não pode se sentir muito confortável em eternas pantufas. Adoro mirar árvores ao sabor dos ventos. Adoro também a elegância impassível das aves, mas esse é um aspecto de meu (sub)consciente que talvez nem eu mesmo entenda. Gosto de dançar até ao som de pratos no jantar. Eu me lembro, quando criança, arriscando passos de quadrilhas até nos eventos mais solenes (esse comportamento era, obviamente, logo logo reprimido por qualquer adulto careta que estivesse por perto). Já fiz coisas da estirpe de distribuir folhetos de divulgação de um serviço de vôo panorâmico só pra poder usufruir desse prazer, eu mesmo...era o pagamento, sabe? Já passei uma manhã inteira tentando vender cocos numa praça com minha irmã e meus primos e consegui a proeza de não vender nenhum. Já vivi entre desertos e oásis, períodos de grande euforia e de melancolia mortífera. Depois de um tempo percebi que tudo é só um questão de se aceitar o que a vida tem pra dar em certas estações, os budistas estão certos. Gosto de roupas leves e de comer pipoca e de tomar sorvete. Gosto muito da palavra "Lua", por sua simplicidade e força. Gosto de olhares e sorrisos. Eu, como todo ser humano normal, não simpatizo com todo mundo, mas uma dose além da trivial de autenticidade e verdade no olhar, já me faz encantado por certas pessoas. Adoro meus amigos. Tenho poucos, é verdade, mas sinto um êxtase bom quando eles apenas estão por perto. Me orgulho de certas pessoas da minha família, de honestidade ilibada e de leveza relaxante. Gosto do bom humor, mas me cansa rir o tempo todo. Adoro quando choro copiosamente e vejo tudo quanto é sentimento negativo se derretendo em lágrimas. Adoro minha cidade, Alagoinhas. Gosto muito de lembrar das coisas que vivi lá. Adoro pensar na minha avó e de como a vida tem sido generosa comigo. Não posso reclamar.

Uma loucura qualquer

A vida tem coisas inexplicáveis. Eu, nessa minha sensibilidade que é minha delícia e minha desgraça, detectei nela frutíferas possibilidades de divertimento em par. Achei que era a tal. Achei que poderíamos andar por aí esvoaçantes, um dando sua única asa ao outro sempre que as aves de rapina rondassem nosso ninho.

Foi todo um processo de coragem de minha parte, do qual muito me orgulho. Vi aquela pessoa, percebi características interessantes, achei que acertaria no milhar. Mas aí logo depois a vida me levou por outros caminhos e andei ciscando por outros terreiros. Fui viver outra história louca, mas essa tem muita dor no final então prefiro não me estender nela.

Aí, depois de um tempo, voltei a investigar a criatura que se apresentou tão doce, tão serelepe naquela noite em que cinco minutos de conversa ficaram registrados durante meses depois, como se algo clamasse por uma conclusão. Foi aí que a achei, numa manobra a la Sherlock Holmes, cheguei até sua toca. Desde então foram deliciosas conversas virtuais, por telefone e reais. Se bem que nas reais ela sempre está meio distante, como se defendendo de algo ou de alguém. Esqueci de dizer que há um certo olhar perdido em sua fronte, às vezes. Hoje saímos de vez em quando e é sempre bacana. Temos graça e humor na vida, mas ainda não tivemos um conflito sequer e isso é meio perigoso. Parece que às vezes evitamos um ao outro, com medo de descobrirmos certas coisas. Mas parece que o que ela busca está a anos-luz dessa terra, talvez ela nunca ache. E alguém tem que avisá-la de que o que ela busca, por injusta e obscura razão, não existe.

Mas há que se percorrer muitas trilhas pelos caminhos. Pegar atalhos e caminhos de pedra. Pegar os prados e campos floridos também, porque afinal ninguém agüentaria tanta pedreira na sola dos pés pra sempre. E somos jovens, temos aqueles anseios que só anos na frente veremos que nos fizeram deixar escapar uma ninhada inteira de passarinhos multicores.

Hoje estamos na indefinição de tudo. Ela nessa busca do que não se pode ter, buscando um outro alguém. Eu já caí do cavalo, já vejo que eram fantasias pueris o que imaginava ser muito interesse pela sua pessoa. Confundi o desejo intenso de me apaixonar com o fato de estar verdadeiramente apaixonado. Mas ainda estou disposto a viver o que tenho pela frente com essa persona, mesmo que sejam só saídas esporádicas recheadas de silêncios eternos entre nossos seres. Essa pode ser classificada como a história mais maluca que vivi esse ano e, por isso, hoje tenho saudade do que não vivi, com uma pessoa que nunca existiu e isso é quase uma saudade por morte do ente querido.

 

Ela é muito legal, espirituosa e viva...eu a adoro, mas definitivamente teremos muito a ver um do outro daqui pra frente. E não sei se tenho medo por mim ou por ela.

 

 

Existirmos, a que será que se destina?

A gente se sente forte quando realiza, quando existe para alguém, quando briga, quando chora...A fortaleza do homem está, enfim, na sua própria existência.  Quando não se faz isso a sensação que fica é de que estamos só driblando, tentando enganar quem nos colocou aqui para mexer com alguma engrenagem. Então:

Há que se chacoalhar o esqueleto, provocar discussões frutíferas, fazer com que as pessoas pensem. Há que se chorar pitangas no pé do caboclo, proferir mentiras sinceras, sofrer de amor e de desejo. Há que se ter dúvidas também. Há que se questionar se certas pessoas nos amam. Há que se ter insegurança e medo. Há que se cantar alto e dançar de rosto colado. Há que se desejar o fim de semana e não fazer absolutamente nada quando ele chega. Há que se passar por muitas contradições na vida também. Há que se dar espaço para o erro, o engano, os equívocos. Há que se ter suspiros por amores impossíveis. Há que se ter ideais. Há que se planejar viagens. Há que se comer muito e se arrepender depois. Há que se deixar ser exagerado algumas vezes. Há que se orar a Deus para que Ele continue a nos espiar. Há que se pensar muito nessa vida...em como isso é louco e é bom. Há que se ter muitas surpresas.

Há que se ser, é a parte que nos cabe.

 

UM ANÚNCIO

AMA-SE

PROCURA-SE UM SER. DE ASAS, CERTO OU ERRADO. DO CÉU OU DA TERRA.

AMA-SE

E PAGA-SE BEM COM AMOR. RECOMPENSA EM OURO.

AMA-SE

E SUA SATISFAÇÃO É GARANTIDA

OU O MEU DINHEIRO DE VOLTA.

Pra machucar meu coração...

Ando assustado pelos monstros da paixão nesses dias. Não sei se isso é bom, se é salutar, se pode me fazer bem ou me danar. São monstros mesmo, daqueles de unhas grandes e retorcidas, que se sonha depois de assistir a um filme de terror. E pior que sinto sua companhia constante, clamando existência e tentando trazer ao fundo do meu coração tanta primitividade de sentimentos que fica realmente difícil controlar o que se faz e o que se pensa.

 

A primitividade é traduzida em sinais claros de falta de apetite, sono e ansiedade pra ver o que me reserva. O amor, a paixão, o medo de se lançar em suas asas, a pressa, o desejo de estar em dois e o receio de perder esse bem-estar, tão duramente forjado, de se bastar em sua própria companhia.

 

É tudo como se classifica nos romances e folhetins para mocinhas do interior. E há os suspiros, não posso negar. Há o coração que se sobressalta e se assusta com a ausência de razão para tanto. Há os suores e os tremores, todos nascidos da responsabilidade que se passa a carregar quando se está nessa situação. Agora até o erro fica imperdoável e uma atitude falha pode determinar o fracasso dessa coisa em se fazer grande e permanente.

 

E fica uma atmosfera tensa de se imaginar em lugares e em contato de outras pessoas além dela. Fica a palavra que não foi dita, o poema que se fez para ela e que merece ser dito, a música que, ao que parece, foi composta para ser cantada ao seu ouvido.

 

São essas coisas de frivolidade, do coração. Mas como diz a canção, as coisas do coração são como são. Escrevo agora para purgar essa amargura com misto de felicidade nascente que confunde a raiz dos meus sentimentos. Escrevo pra dizer que já a amo e tenho ciúme de seu passado, das bocas que tiveram contato com a sua, tenho ciúme daqueles braços que a conheceram antes de mim.

 

Mas agora não sei se realmente a amo já ou se isso é só, somente só, vontade louca de amá-la, dividindo esse acúmulo de amor não ressarcido de anos e anos. Fico confuso e cansado quando penso nisso que ando vivendo. Ando esgotado mesmo, visto que não tolero as imposições do amor. Perco a liberdade e a independência altaneira. Falo de mim pensando nela, e se caibo bem em seu sonho.

 

Cansa-me o pensamento obsessivo de querer só o seu bem, salvaguardando-a do mundo cruel e sem amor. Cansa-me sentir tão responsável por ela, como nos escritos de Saint-Exupéry.

 

Mas continuo amando-a ou querendo amá-la, querendo também tê-la dentro de mim. Ela que me agüente depois e se agarre a esse rico espólio de sentimentos perfumados e paixão desmedida. Caso contrário, volta-se a tudo como era antes, sendo tudo como antes era. Amanhã...

 

A divagar...

A vida e suas complexidades. É bom pensar nos caminhos, muitos caminhos, que a vida pode nos oferecer e como vamos nos metamorfoseando para caber direitinho naquele que nos dá segurança. É assim que vamos morrendo a cada dia enquanto vivemos também. Morre uma pessoa de nós numa freqüência que poucos suspeitamos. Claro que alguns de vez em quando ressuscitam de algum passado longínquo ou a pequeno alcance. Seres que, tomando emprestados o nosso corpo e a nossa voz, conseguiram ser amados outrora.

 

A vida é complexa porque nós sempre estamos em busca do amor, da aprovação. E não tinha como ser diferente. Por mais que alguns mais radicais alardeiem sua anarquia e sua auto-suficiência amorosa, todos nós, sem exceção, queremos ser inundados de amor, incomensurável amor. E é nesse jogo de mostro o que quero e escondo o que é ignóbil, que vamos reconstruindo e/ou eliminando personalidades.

 

Já fui passivo, já fui calmíssimo, já fui obediente, já fui religioso, já fui resignado, já sofri de amor, já gritei por dentro o quanto amo certas pessoas, já fui raivoso também, já disse frases mortíferas, já senti ódio e amargura, já fiquei angustiado, já me senti triste, tão triste a ponto de querer morrer. Já fui e sou muitos. E isso nem chega perto da esquizofrenia, como suspeitei durante anos. É só muita vida mesmo, ou pelo menos desejo de vivê-la intensamente, esgotando-a em grandes goles, sem comedimento. É vida que se condensa e se dilui. Vida que se deteriora e se emenda. Anda ora trôpega, ora em perfeito alinho. Vida que acerta e que permite o erro.

 

Complexa, deveras complexa. E marchamos. Trabalhamos, comemos, saímos às compras, namoramos, marcamos encontros, vamos ao médico, choramos de saudade, morremos de amor, dormimos, ficamos insones, vemos filmes, seriados e novelas, falamos dos outros, ouvimos música, aplaudimos nosso artista favorito, sentimos inveja, perdoamos, fazemos pose, desfilamos nas ruas, nos fazemos de inteligentes, desejamos ser belos, sentimos medo da morte.

 

E ainda assim a Vida é bela. Como diz a música de Caetano, “eu digo que ela é gostosa”. A vida é complexa e gostosa. Há que se ter coragem para vivê-la e compreendê-la mesmo de relance. Todos que isso reconhecem certamente hão de ser recompensados.

Resolva o problema abaixo

- Teresa, me dê suas razões.

- Não há motivo especial digno de ser dito nesse caso, retrucou a moça.

- Não, não concordo. O acontecimento que se dará dentro de instantes com você deve ter razões fortes e claras por trás. É assim com todos que decidem por esse caminho.

- Mas não disse que não havia razão forte ou clara, só disse que não há razão especial a ponto de ser dizível. E além do mais você não me entenderia, ninguém me entenderia.

- Ajudaria muito se você começasse por dizer pelo menos uma causa, insistiu Américo.

- Ok, posso tentar. A essa altura do que ainda posso chamar de vida isso não vai me custar muito. A razão única, fundamental, clara e forte, ainda que não digna de ser dita, é: isso aqui não tem sentido. Para onde ir?, me pergunto. E pior: para quê ir? Rompeu-se o fio que mantinha lúcida e que me fazia ver mil razões de se viver e fazer as coisas.

- Está vendo? Você acabou sendo muito mais explicativa na exposição do porquê de seu ímpeto.

- Não é só ímpeto. E é melhor pararmos por aqui, caso contrário iremos descambar para o terreno da discussão freudiana e essa sacada, de onde me inclino em direção vertiginosa ao chão, vai virar um divã.

- Teresa, eu te amo.

- Ora, Américo, não me venha com chantagem emocional. Se você pensa que vai me fazer retroceder com suas mentiras, perde seu tempo. Você nunca me amou como eu te amei e mesmo que tivesse amado já teria encontrado ocasião melhor para se declarar.

- Essa é uma ocasião mais que especial.

- Sim, a ocasião mais especial desde que saí do ventre de minha mãe. Dentro de instantes me verei liberta, veloz rumo ao desconhecido, até chegar num lugar onde minha alma se sinta adequada e não fique tanto sem fôlego.

- Você parou com seus medicamentos?

- Sim, há uma semana. Nada de remédios contra minha asma maldita. Parei com os ansiolíticos também.

- Orientada por quem?

- Por mim mesma, como sempre. Como foi até agora. E, um momento, quero mais meio minuto de meditação antes de fazer o que é devido. Peço que se afaste.

Foi nesse momento que Teresa, advogada, 34 anos, solteira e insone, se lançou do décimo andar de um prédio classe média do Rio de Janeiro. Depois de alguns meses ninguém mais deu por falta dela, exceto o homem que acompanhou seus últimos minutos. Américo continua a acreditar que a amava. Esse amor não pode salvar a pobre mulher. E Américo chorava às noites.

Que viagem...

Nas trilhas do mundo

Nos ares de céu encoberto

Mares singrados

Caminhos abertos

Trilhos urbanos

Seguindo o rastro das sensações

Sabores, olfato e visão

Oásis

Indo sempre aonde tem calor

E comida farta

E ainda som contagiante

Querendo o que tem ali

Sem deixar o que se tem aqui

Salvando o náufrago

Matando o são

Viver viajando

Porque é preciso.

Passagem rápida pra contar como foi no Sul

Nesses dias estive nas paragens gaúchas, em meio a gente tomando muito, mas muito chimarrão e cheia de sotaque carregado nos "erres". Adorei aquele ambiente muito familiar de pessoas que ainda mantêm a tradição de se juntar numa roda e abrir o verbo, prosear um pouco, rir um monte. Passeei guiado por amigos ternos que me levaram pela mão a participar de seus círculos familiares fofos, cheios de afago.

Conheci a serra nessa ordem: Três Coroas (o rafting e o templo budista, o maior da América Latina), Gramado (fondue, praça coberta, catedral belíssima e uma cornucópia de chocolate), Canela (Cascata do Caracol em cima de um teleférico), Cambará do Sul (canyon de Itaimbezinho como brinde no fim da trilha do Parafuso), Vale dos Vinhedos (Bento Gonçalves e suas vinícolas).

E ontem foi dia de POA. Gasômetro, museu de Iberê Camargo, Brique da Redenção, Calçada da Fama...Aqui perdi um pouco o fio de pura ternura que havia me mantido atado durante os dias predecessores na cidades de meus pares e na serra. Confesso que estranhei aquela gente aparentemente pouco aberta a diálogos mais abertos com o mundo. Estranho sentir isso logo na capital do estado. Me senti meio peixe fora do aquário.

Mas isso, de modo algum, estragou essa viagem. A viagem mais rica, condensada e fugaz que experimentei nesses anos de vida. Por muitas vezes fui tomado por emoções inexplicáveis, coexistentes e confusas: senti saudade de minha casa, daquele ambiente muito meu, senti vontade de ficar mais um pouco entre aquela gente, senti vontade de agradecer aos céus por viver num país que me permite experimentar mundos novos sem ir muito longe, senti vontade de abraçar aquelas senhorinhas tão sorridentes, leves e sem pecado ignominioso pra pesar nas costas mesmo vivendo tantos anos...

Foram momentos inéditos, necessários e sempre aplaudidos. Ainda terei tempo de contar mais.

A tua presença

Sobre as camas e os lençóis quentes ela anda frígida. Sem libido, sem tesão. Andava cansada de se dar e de ser engolida. Há dias havia morrido para o sexo selvagem, de suores e respiração arfada. Ela estava de cama, prostrada e curtia sua dor. Seus lampejos de coragem fugaz em que mergulhava em outro corpo a haviam exaurido. Um corpo que cai, e estranho. Era assim que Anita passava seus dias, meio enlutada. De instrospecção reinante e sem sorriso espontâneo. Anita era filha de deuses de amor e guerra. Em pé e deitada. Dormindo e acordando. Sem pular corda e sem saltar muralhas. Anita era assim, uma quase morta.

N-Ã-O

É dolorosa a sensação de estar sozinho no mundo. Nesse mundo cheio de carga pesada e brutal. Implacável. Estranho se ver com um inadaptado no ninho. E pior ainda é ver recusados os seus "nãos", quando o que mais ser quer é ficar em casa, sozinho e bobo.

Será que é demais pedir às pessoas tolerância e uma filigrana de compreensão? É ilícito não aceitar tudo que se é proposto? A não aceitação de tudo deve implicar no achincalhe e na rejeição? Não, sinceramente acho que não. Acho justo o contrário: é digníssimo saber negar prazeres em benefício da realização do que você acha que lhe traz plenitude. E mais: não vou ficar me enchendo de compromissos, sempre com um copo de bebida na mão e um sorriso largo no rosto só pelo prazer inegável de ser amado e socialmente querido.

Não! Estou na fase de usar esse advérbio. Quem me conheceu dizendo "sim" sempre sorridente, que se acostume a essa fase da minha vida. Só aviso que não posso deixar espaço para o "talvez".

Sei que o post parece, à primeira vista, um amontoado de palavras desconexas, mas estou sob o efeito de certos acontecimentos recentes, o que quer dizer, ainda sob o ardor das emoções. Mas uso isso aqui como um escoadouro. Se não o tivesse arrombaria as comportas da insanidade, do desatino e da falta de prumo.

Mas é isso mesmo: ando sendo pouco compreendido e as pessoas, não as culpo por isso, não estão fazendo o menor esforço para me ler. Solitário isso, mas é a minha condição e farei das tripas coração.

Quero sossego e não dar tanta satisfação. Não quero e pronto! Mas por que? É demais dizer que meu "não" se encerra em si mesmo? É um ponto final. Como esse, que insistiu em se alongar aqui.

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